sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A verdade

   As últimas sextas-feiras ensolaradas fizeram com que eu vivesse um momento "Feist feelings".
   Então pensei que hoje gostaria de sair por aí cantando "take anywhere with you..." para todas as pessoas que amo.

   Acho que ainda há tempo.





A ligação

   Ontem recebi uma notícia maravilhosa, por uma pessoa querida que estava bem mais eufórica que eu. Esse momento eu nunca esquecerei.

   Certa vez me disseram que quando alguém nos dá uma notícia importante, essa pessoa fica presente na nossa memória para sempre. E enquanto caminhava após isso pensei que com tão simples atitude ela entrou para a caixa onde guardo os que tranformaram essa teoria em realidade.

As memórias

   Uma amiga minha tem todos os azulejos do banheiro desenhados. Todos que oferecem possibilidade de acesso, mesmo em cima de um banco ou ajoelhado. Há pelo menos 5 anos vejo esses desenhos toda vez que entro lá. Hoje eu observei.
   Vi muitas marcas em vários deles. Dela, minhas, de alguns amigos. Pessoas que passaram e seguiram seu caminho, ou ficaram. Cada um deixou sua impressão sobre a vida, sobre o momento em que escrevia: desenhos, frases, trechos de músicas... Cada um deixou algo que naquele momento pensou que seria interessante o suficiente para ser lido várias e várias vezes. E eu fiquei tentando encontrar um pouco de cada pessoa em cada detalhe percebido.
   Pensei na minha amiga, ao notar que mais da metade dos azulejos foram decorados por ela, e tentei imaginar quantas imagens dela haviam ali, cada momento que nós vivíamos em cada escrito. Então me veio à mente que muito do que havia sido deixado não mais seria "filosofia de banheiro" nos dias atuais, mas já foi muito significativo algum dia. Compreendi, portanto, que ali ela reproduziria o filme da sua juventude, sempre que quisesse.
   E me permiti sentir inveja.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

As garotas da minha vida

   No último domingo, enquanto mexia na bagunça do meu guarda-roupa, encontrei um dos últimos livros da minha adolescência tardia: "Os garotos da minha vida", de Beverly Donofrio. Nele, a autora narra a sua vivência com os diversos garotos que fizeram parte da sua vida. Pela primeira vez me dei conta da minha realidade, e me identifiquei com algum autor. Eu simplesmente poderia discorrer sobre as garotas da minha vida.
   Cresci em meio a mulheres: mãe, irmãs, incontáveis primas e amigas. Meu pai passava a maior parte do tempo fora de casa, então tive uma educação essencialmente feminina, inevitavelmente. Aprendi sobre moda e maquiagem, sobre novela mexicana, e a cozinhar e manter uma casa em ordem. Sobre ginástica olímpica. Não sei absolutamente nada sobre futebol, videogame e Cavaleiros do Zodíaco, e costumo me divertir com isso.
   Aprendi, sobretudo, a ter ouvidos atentos, a conhecer um pouco sobre a sensibilidade humana, sem que para isso precise apelar para a emotividade barata. A dar o espaço que as pessoas precisam para serem elas mesmas, mas também a ser perspicaz o suficiente a ponto de não permitir que se aproveitem da minha nobreza, sem nunca precisar fazer cara feia. A escutar silêncios, respirações e olhares, e saber que na maioria das vezes estes falam mais que palavras. A ser complexo, burocrático e meio complicado. E a evitar que as demais pessoas conheçam essa parte, mesmo não conseguindo na maioria das vezes. 
   Então, pensando sobre isso, chego à conclusão que nunca trocaria nenhuma das garotas da minha vida nem por todos os garotos decentes do mundo. Em mim existe um pouco de cada uma delas.
   E sobre o livro, fica a dica. Para aqueles que possuem espírito jovem.




segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A lembrança

   "Essa semana eu tava deitada no terraço lá de casa, pensando na vida, e lembrei que há 10 anos eu estava deitada no mesmo lugar, também pensando na vida. Só que eram coisas diferentes." Com isso foi iniciada a conversa. Discorremos sobre alguns de nossos planos e sobre o que pensamos em relação ao futuro. Eu quase fui insensível e disse que sendo assim ela não havia mudado muita coisa durante esse tempo, aí lembrei que há 10 anos eu também pensava muito, deitado exatamente na mesma cama sobre a qual eu digito agora.
   Eu me achava meio esperto. Não pensava muito em outras pessoas, nem conseguia pensar a longo prazo. Tudo parecia estar bem próximo: o que faria no fim de semana, a prova no fim do mês, essas coisas que as pessoas de 16 anos pensam (ou que pelo menos creio que pensam). E me dava por satisfeito. A única coisa mais distante que conseguia pensar era se algum dia entraria numa calça 38. Isso eu consegui.
   Os pensamentos de hoje sempre parecem mais complexos. E agora me esforço para compreender que aos 16 anos as saídas, as provas e as calças 48 eram quase tudo que tinha na minha vida. Em hipótese alguma eu conseguiria ir muito além. Então eu retorno aos questionamentos atuais, e me pergunto para quais deles conseguirei respostas.
   Isso eu deixo para responder aos 36.
  

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O verbo

   Ontem, aproveitando essa onda de tempo livre, saí com duas amigas para vasculhar o mundo. Na volta, enquanto uma delas repetia o quanto acha que essas nossas saídas são saudáveis, reparei no segundo copo de suco de uva que eu tomava. E pensei no quanto havia comido e nas tabelas de calorias que não olho mais.
   Então ela falou que não era a isso que se referia, e me lembrou de coisas que minha cabeça de gordo esquece: como conversamos nessa noite, falamos de nós, vimos coisas interessantes, e falamos sobre e dos outros. E em como estávamos felizes, apesar dos pesares que sempre existem.
   Então pensei no quanto elas são importantes para mim. E que gostaria de dizer isso, mas sei lá, achei que não precisava. E no quanto gostaria de dizer isso para algumas outras pessoas e de abraçá-las até que meus braços ficassem cansados. Ah, mas eu sempre faço tanto, então por que falar? E a pergunta ficou: Por que não falar?
   Mas mais uma vez não falei. E voltei pra casa com um nó no coração por não saber lidar com excesso de amor.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O luto

   Na última semana, depois de encerrar toda a série de atividades que considerava as mais importantes do ano (da vida, creio), me dei conta de que havia cumprido minha responsabilidade, e que com isso parte considerável da minha angústia havia ido embora.
   A princípio me deleitei, curtindo cada minuto da "não-angústia". Depois disso percebi que não sabia o que fazer com meu tempo livre, pois não tenho mais habilidade para lidar com esse tipo de benefício.
   Conversei com uma amiga sobre isso, e ela falou: "não se preocupe, meu bem. Se serve como consolo, angústia sempre aparece". E completou dizendo que eu deveria aproveitar isso, que merecia descansar um pouco. Afinal de contas, eu estava sentindo falta de quê? E pensei: Da angústia que me estruturou durante um bom tempo, que me deu um rumo, que me fez ter compromisso comigo mesmo, que me fazia jogar com meus medos. Ela era muita coisa, e era minha.
   Foi como um parto. Não, como um aborto: ela existia, e simplesmente deixou de existir. Estou de luto, e agora passo a maior parte do tempo hasteando a bandeira do nada no doce vazio das horas. Isso está começando a me angustiar.
   E mais uma vez minha amiga estava certa.



A visita

   No fim-de-semana ela me ligou para dizer que apareceria ne segunda, então, assim como a raposa de "O pequeno príncipe", fiquei cheio de expectativas. Havia mais de um ano que não recebia sua visita.
   Acordei cedo, mesmo sendo feriado chuvoso, e coloquei em prática uma série de velhos hábitos que há um bom tempo não fazia: fui ao mercado, arrumei a bagunça (e esqueci da rinite), fiz o bolo que ela tanto gosta. Então ela chegou e iluminou o restante do meu dia.
   Falou de si e de suas realizções, como sempre gostou de fazer, e eu escutei. E falei bem menos do que costumava fazer na escola, porque escutá-la falar sempre me fez esquecer as minhas preocupações. Então como agora me restam poucas, pensei que apenas esse encontro seria suficiente. E enquanto ela ia embora e eu observava do portão, fiquei me perguntando por quantas vezes nessa vida esse momento se repetiria.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Hoje acordei assim

   Fazendo a linha Cris Guerra no "hoje vou assim", deixo aqui o link de um vídeo (carregar o vídeo demora muito!) que representa muito bem o que manhãs ensolaradas de sexta promovem no meu espírito:


   Porque as nuvens eu guardo para as segundas.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O consolo

   Dia desses, enquanto estava na casa de umas amigas pedindo ajuda em um projeto, de repente parei em frente a um espelho incrível que fica no canto do escritório. Me vi de corpo inteiro, e reparei que por baixo da camisa minha barriga havia crescido consideravelmente.
   Não resisti, e levantei a camisa. E, nossa, ela cresceu mesmo! Em um instante pensei nas minhas calças apertadas. Daí para as noites mal dormidas foi um pulo. Pensei também em todas as vezes que abri mão da minha caminhada para ler alguma coisa, e na minha alimentação descontrolada nos últimos meses. E também nas vezes que fui de carro à universidade porque não podia perder tempo. E em todo o meu sedentarismo.
   Eu me alimentei de tudo isso durante quase um ano, estava tudo guardado na minha barriga crescida.
   Quando o filme terminou e levantei a cabeça, percebi que elas observavam minha viagem, e não deixei por menos:
   - Nesse ano escolhi ser inteligente!

A constatação

   Dois dias depois do encontro com minhas amigas e alguns dias depois de ter dado conta de parte considerável do que para mim era a minha maior obrigação do ano (ou da vida, talvez), fui a uma festa com alguns dos meus amigos e amigas.
   Algumas horas depois da chegada, enquanto alguns começavam a reclamar que esta não estava sendo tão boa quanto esperavam, eu só curtia. A banda se esforçava, mas não conseguia agradar todo mundo, e eu só curtia. A bebida acabou antes da hora, e eu só curtia.
   De repente eu me dei conta que não era aquela situação que me agradava, mas o fato de que depois de tantos meses eu me sentia realmente livre. Durante algum tempo eu me questionei se conseguiria isso ainda. Mas estava acontecendo, eu não podia (nem queria) evitar. A única coisa que me incomodava era a vontade incontrolável de dizer pra todo mundo o que estava sentindo, mas claro que isso eu não faria.
   Na volta pra casa a mistura das primeiras luzes da manhã com as luzes artificiais que atravessava minhas lentes sem anti-reflexo, pela primeira vez me lembrava que eu podia, ou melhor, que eu merecia estar ali. Era estranho me perceber nessa posição de merecedor de algo. Naquele momento, do alto da minha falta de sono, a única certeza que eu conseguia ter era a de que ainda dependeria de vários dias para processar tudo aquilo.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A marca

Algum dia entre abril e maio de 2010:

- Flora, tenho sonhado muito ultimamente.
- Muito?
- Sim. Eu passava meses sem sonhar. Agora sonho quase todo dia. Até cochilando à tarde.
- Com o quê?
- Ah, com um monte de coisa e com algumas pessoas. Contigo já sonhei. Com uma parte do pessoal também. Com a Nina várias vezes. E com os cavalos. A diferença é que agora fico tentando compreender, estabelecer relações entre todos esses elementos. Se bem que nessa semana teve um meio estranho que não consegui compreender direito.
- Hum, são muitos conteúdos latentes, meu bem. Tu já levou pra tua terapia?
- Não. Sei lá, acho meio desnecessário. Eles não estão me incomodando, muito pelo contrário. Acho que vou fazer uma tatuagem.

O fio

    Dia desses resolvi sair com um grupo de amigas, pois não nos encontrávamos todos os integrantes da formação inicial havia alguns anos. Estava com saudade e achava que merecia vê-las, então fiz um esforço especial para acordar num sábado sem aula às 8 da manhã.
   À primeira vista, os 5 reunidos novamente, as diferenças eram perceptíveis: cabelos, corpos, intenções. Era interessante perceber o quanto as diferenças imperavam entre nós e em relação ao que éramos num antigamente nem tão antigamente assim. Estávamos melhores (com certeza), mais bonitos e inteligentes e, talvez, sofisticados. Os assuntos eram outros: as havaianas coloridas deram espaço aos lançamentos conceituais da melissa, viagens pra casa da mãe foram substituídas por viagens a trabalho, paqueras da faculdade haviam virado vontade de morar junto, investimento em roupa nova já não se mostrava mais tão interessante perto da necessidade de investir em um carro ou numa casa, quem sabe.
   Parecíamos outros. Mas não, extamente nisso éramos nós mesmos. As dúvidas, os anseios, os desejos estavam todos lá, só não possuíam mais o  mesmo foco. E emergiam. Assim, à medida que conversávamos reconectávamos o fino fio que outrora já foi bem firme, e que por fino que seja de todo não se desfez, e talvez não se desfaça. Mas para isso precisaremos de mais alguns anos para testá-lo novamente.