quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O luto

   Na última semana, depois de encerrar toda a série de atividades que considerava as mais importantes do ano (da vida, creio), me dei conta de que havia cumprido minha responsabilidade, e que com isso parte considerável da minha angústia havia ido embora.
   A princípio me deleitei, curtindo cada minuto da "não-angústia". Depois disso percebi que não sabia o que fazer com meu tempo livre, pois não tenho mais habilidade para lidar com esse tipo de benefício.
   Conversei com uma amiga sobre isso, e ela falou: "não se preocupe, meu bem. Se serve como consolo, angústia sempre aparece". E completou dizendo que eu deveria aproveitar isso, que merecia descansar um pouco. Afinal de contas, eu estava sentindo falta de quê? E pensei: Da angústia que me estruturou durante um bom tempo, que me deu um rumo, que me fez ter compromisso comigo mesmo, que me fazia jogar com meus medos. Ela era muita coisa, e era minha.
   Foi como um parto. Não, como um aborto: ela existia, e simplesmente deixou de existir. Estou de luto, e agora passo a maior parte do tempo hasteando a bandeira do nada no doce vazio das horas. Isso está começando a me angustiar.
   E mais uma vez minha amiga estava certa.



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