Desde que começou a trabalhar ela pensava que de fato nunca teria uma vida emocionante como cotumava ver nos filmes. Mas isso era apenas um devaneio, uma reclamação interna; algo que não comentava com ninguém, pois já não era mais adolescente para se permitir tais coisas.
Uma tarde ele resolveu encontrá-la. Estava ali perto, e como havia parado de chover, resolveu passar. Ligou antes pra saber se podia, pois se conheciam há pouco tempo, e os espaços ainda eram bem respeitados. Estava quase na hora do intervalo dela, então podiam conversar um pouco.
"Você está aí faz muito tempo?" Ela perguntou.
"Nem tanto. Resolvi esperar sentado aqui fora. O que é isso que você tem aí?"
Ela carregava algumas folhas perfuradas e uma espiral. Disse que ia aproveitá-las do escritório, já que eram antigas e iam ser jogadas fora. Eram folhas coloridas: azuis, amarelas, róseas e algumas verdes. "Quase como nos cartuchos de impressão", ele pensou.
Perguntou o que ia escrever nelas. "Algumas poesias. Costumo fazer isso desde os tempos do colégio". E enquanto ele considerava se perguntava ou não se poderia ler alguma, ela adiantou logo que sempre as deixava em casa, por precaução.
Enquanto isso ela colocava a espiral nas folhas, com certa dificuldade. Ele resolveu ajudar, segurando as mesmas, e nesse momento sua mão pousou sobre as dela, que esboçou um sorriso.
Os olhos se encontraram, e ele disse que não poderia perder aquela oportunidade. Então ela riu de novo e baixou o olhar, um pouco envergonhada. E se soubesse que, para ele, naquele momento aquelas poucas cores se misturaram e coloriram sua tarde cinza, definitivamente teria certeza que alguns pequenos grandes momentos podem, sim, ser como nos filmes.